Entrevista com Whisner Fraga
Entrevista com André Rocha
Entrevista com Edson Bráz da Silva
Entrevista com Ivo Barroso
Entrevista com Marcelo Serodre
Entrevista concedida a Maria José Rezende Campos
Meu projeto literário, enquanto planejamento, pode-se dizer que iniciou com a publicação do meu primeiro livro O Acaso das Manhãs (1986). Comecei a escrever aos 13 anos de idade, mas eram esboços, etapas de um aprendizado. Eu enchia cadernos e mais cadernos com manuscritos e depois várias pastas datilografadas, mas aos 20 anos queimei todos eles, pois achava que já era hora de encarar a literatura mais a sério.
Entretanto, de vez em quando, retornam à minha memória alguns daqueles versos e eu sinto nostalgia daquela espontaneidade que o tempo fez questão de sepultar. Eu lia muito por esta época, mais do que eu leio atualmente e meus autores preferidos foram se consolidando até chegar a esta tríade que me acompanha até hoje: Drummond, Fernando Pessoa e Augusto dos Anjos.
Mas há outros, não menos importantes, como o Manuel Bandeira, o Graciliano Ramos, Edgar Alan Poe, H.P. Lovecraft, entre tantos.
Eu reviso muitas vezes os meus escritos, acho isso fundamental, principalmente para autores que, como eu, não submete os seus textos a ninguém antes de serem publicados. portanto eles não devem ter palavras faltando nem sobrando e esta é a minha única medida. Mas mesmo assim é preciso esperar algum tempo pela decantação do texto porque “a literatura é a emoção recolhida em tranquilidade”, no dizer do autor inglês W. Wordsworth.
E entendo a literatura como registros, retratos de si, pistas que deixamos como pegadas na areia de uma posteridade que, provavelmente, ninguém irá notar.
Quanto a linguagem eu prefiro uma que seja enxuta, direta, sem rodeios. “sua forma de escrever é ácida, sem concessões. seus poemas são mordazes, incrivelmente corajosos. ele nunca poupa a si mesmo nem ao mundo. Milton vem da melhor tradição da poesia e prossegue com ela” (M.S).
Os meus temas predominantes são a solidão, o amor e a morte. Tudo o que foi retido no território bruto e confuso da memória, reminiscências, revolta e um pouco de ternura.
Minhas preferências são várias, mas de um modo específico, muitas delas giram em torno da morte, dos cemitérios, figuras estranhas e insólitas permeadas por um fator sobrenatural e um fator filosófico. Como de resto em toda a minha poética, esses fatores.
Em 2013 foi defendida e aprovada pela Universidade Federal de Juiz de Fora e depois, já em 2015, publicada em livro a dissertação de mestrado de Maria José Rezende Campos intitulada “Tempo de poesia: intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”, constituindo assim na primeira publicação a tratar da fortuna crítica do autor.
Finalmente eu tenho ainda mais alguns, poucos, projetos literários na cabeça, pelo menos em esboço que espero concluir. De qualquer forma pretendo chegar a um ponto onde eu possa pelo menos suster o meu processo criativo e dar por encerrada a minha atividade literária. Talvez mais uns três volumes e já estará de bom tamanho. Ainda nesse ano de 2023 espero publicar o meu livro “Da Essencialidade da Água” e depois, quem sabe conseguir publicar a minha “Obra Completa – Literária II”. Feito isso ficará faltando, eu acho, mais um único livro “O Outro Lado do Escuro” para eu encerrar. Ciao!
Gênese: neste texto eu digo “autores que, como eu, não submete os seus textos a ninguém antes de serem publicados.”
Isso, no meu caso, é mesmo verdade, exceção feita a “Mais uma xícara de café”. A composição e a escrita deste livro foi algo sui generis que, em mim, não vai se repetir. Mesmo porque, por problemas de saúde, hoje eu já não bebo e tudo o que escrevo é “a frio”.
Escrevi “Mais uma xícara de café”, como digo no próprio decorrer do livro, basicamente sob os efeitos do álcool no organismo. Numa espécie de escrita que obedecia unicamente ao fluxo da consciência ou da sua inconsciência. Eu pretendia colocar em prática uma espécie de “escrita automática”, algo assim como abrir “As Portas Percepção” como o fez o Aldous Huxley. Pois bem, fiz isso em geral no livro todo, mas é claro que no dia seguinte, sóbrio, eu relia todo o trecho e fazia meus apontamentos, correções, revisões e mesmo supressões ou alterações no texto escrito na noite anterior. Mas mantendo a sua essência, o seu fluxo e ritmo próprios.
Naturalmente, depois do original pronto, eu estava confuso e inseguro quanto ao resultado final. Se teria qualidades a ponto de eu decidir publicá-lo.
Assim sendo, pela primeira e única vez eu resolvi submetê-lo à opinião alheia na pessoa do poeta e escritor conterrâneo Marcelo Serodre, então meu amigo e a quem eu prezava sobremaneira a sua opinião literária. Não sem razão.
Então ele, após a leitura, escreveu-me um e-mail desancando o meu original, apontando-lhes inúmeros defeitos. Foi como um balde de água fria. Mas como eu respeitava seus conceitos e opiniões tive que agradecer-lhe pela leitura e os “palpites” que dera. Alguns eu achara pertinentes e outros nem tanto. Isso foi alguns anos antes de 2006/2007, quando da sua redação final e definitiva.
Coloquei os originais na gaveta para decantação e amadurecimento em mim. Lendo-o e relendo-o várias e repetidas vezes eu lhe achava qualidades apesar dos muitos defeitos. Resolvi então colocar as mãos na massa e modificar e reescrever alguns trechos ou passagens. Fiz um trabalho consciente e meticuloso e considerei-o “quase pronto” e acabado. E quando eu considero alguns dos meus livros prontos e acabados eu não mexo mais neles e essa segunda versão eu submeti à apreciação do grande poeta e tradutor Ivo Barroso, meu amigo e também conterrâneo de Ervália, Minas Gerais.
Dessa sua leitura e apreciação ainda surgiram pequenos ajustes aqui e acolá que eu fiz, mandando-o para a editora e ser, finalmente, publicado. Isso já era o ano de 2017. Portanto um longo percurso e espera que valeram a pena, pois foi muito bem recebido a ponto de o consagrado Ivo Barroso chama-lo de “livrão”. Assim o “Mais uma xícara de café” finalmente veio a lume.
Foi no dia 25 de setembro de 1981 que conheci Milton Rezende, quando estávamos sendo empossados no cargo de Mensageiro da MinasCaixa, em Juiz de Fora. Casualmente conversamos sobre alguns assuntos e, em determinado momento, ele disse que escrevia. A partir daí passamos a conversar mais sobre literatura e ele me apresentou seus manuscritos que, na época, eram escritos a caneta mesmo ou datilografados. Cinco anos depois ele publicou seu primeiro livro, O Acaso das Manhãs.
Não é essa característica que predomina no conjunto da obra. Seus dois primeiros livros, O Acaso das Manhãs e Areia: à Fragmentação da Pedra são mais identificadas com a vanguarda ou modernismo brasileiro. Mas existem ecos do romantismo, só que sem o decadentismo que marca o spleen. Já Uma Escada que Deságua no Silêncio, A Sentinela em Fuga e Inventários de Sombras, seus livros mais recentes têm esta presença do romantismo decadentista francês, que foi influenciado por Edgar Allan Poe, e teve no Brasil, como expoente, Cruz e Souza. Ao mesmo tempo, há influência do pré-simbolismo de Augusto dos Anjos em várias imagens. Logo, existem as características românticas, mas muito diluídas no conjunto da obra.
No estilo de escrita, não. Os versos de Milton Rezende são livres, enquanto o romantismo e o pré-simbolismo primavam por formas mais ritmadas. No caso do estilo, a identificação está com Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade.
Como já dito, forte influência de Fernando Pessoa e Drummond, na forma escrita. Quanto ao conteúdo, uma angústia existencial que lembra a literatura da primeira metade do século XX.
Não sei se esta pergunta se refere ao escritor Milton Rezende ou a todos os escritores. Então, vou responder qual a função de todo escritor. Stephen King disse que a função do escritor é contar uma história. Eu concordo com isto e digo mais: a função do escritor é contar uma história de forma escrita.
Pelo contrário. Muitas pessoas diziam que a Internet iria acabar com a literatura. Tem gente que diz isso até hoje. A Internet possibilita uma maior divulgação dos trabalhos. Claro que existem escritores de várias qualidades, mas isto sempre existiu. Pessoas competentes e incompetentes existem em qualquer área, e na literatura isto não poderia ser diferente. Cumpre ao leitor se identificar com este ou aquele autor de sua preferência.
Quem dera se eu soubesse a resposta para isto. O trabalho literário se diferencia das demais áreas por este aspecto: não é a qualidade que conta, caso contrário não teriam tantos escritores de qualidade morrendo desconhecidos e até mesmo anônimos. Por outro lado, um escritor medíocre pode até se sobressair em determinado momento, mas sua “glória” dura pouco. Na minha opinião o que conta é sorte.
Em termos pessoais, Milton Rezende é um dos dois únicos amigos que tenho (o outro é Jesus Cristo). Quanto ao autor, é sério e persiste na literatura, quando muitos desistiram. A persistência pode gerar o sucesso, claro. Quanto à sua obra, ela se confunde com sua vida. Milton Rezende escreve sobre aquilo que conhece. Veja o que ele disse há muitos anos (para falar a verdade, no século passado): “sempre amei como quem cometia um assassinato premeditado, que cobria várias fases de planejamento e execução”. Isto revela o homem revoltado conforme a concepção de Albert Camus, ou seja, um homem que se opõe à ordem que o condena à morte desde o nascimento. Desta inquietude surge seu impulso criativo que vem se aprimorando a cada publicação.
Eu o conheci na faculdade de Letras, na UFJF. Começamos o curso juntos, e o abandonamos também praticamente juntos, fizemos amizade, e a partir daí foi muita troca de informações literárias. Aprendi muito com ele, a quem sempre venerei.
Sim. É visível em sua obra uma proximidade temática com o spleen, pois a morte é tema recorrente em seus poemas desde os primórdios de sua escrita, embora de forma um pouco diversa do romantismo, pois para Milton Rezende ela faz parte da vida, ronda não apenas a sua vida, mas também a de todos nós. Sem lamúrias e choramingos, ele está sempre nos lembrando que ela está a nossa volta, como num sutil filme de terror. A morte não é fuga, ou solução, mas talvez apenas evidência da precariedade da vida.
Penso que não, pois é um estilo literário que não é do agrado dele, cuja influência que se pode identificar, a meu ver, se resume à temática funesta.
A radicalidade literária, a total entrega à literatura e à poesia em especial. Kafka disse que “tudo o que não é literatura me aborrece”, palavras que se encaixam perfeitamente no perfil do poeta Milton.
Já tive discussões intermináveis com o Milton sobre isso, quando eu acreditava que o poeta poderia e deveria salvar o mundo. Ele me convenceu que o escritor deve apenas escrever, e tentar fazer isso da melhor forma possível. Nada mais.
Em maior ou menor grau, o escritor sempre procurou um jeito de mostrar sua obra, e encontrou. Mas, apenas a qualidade prevaleceu. Só o tempo dirá quem tem qualidade.
Não vejo necessidade de “sobressair”. Um escritor tem que escrever e mostrar sua obra, apenas isso.
Grande poeta, de obra densa, intrigante, que não permite a indiferença ou muxoxo quando é lida. Poeta definitivo, que diz o que quer dizer, sem reticências, sem rodeios, porém sem desperdiçar palavras, sem jogar ao ar blasfêmias estéreis, sem pirotecnia. Às vezes é seco como Drummond, tétrico com Edgar Alan Poe, mortal com Augusto dos Anjos, sensitivo como Fernando Pessoa, mas é sempre Milton Rezende, o que disse que “somos apenas alguns/ao redor de uma mesa/ou de um pensamento/e nos amamos com receio”, em seu segundo livro (Areia – À fragmentação da pedra – 1989) e que hoje nos ensina a fazer poesia: “Não se deve fazer/poesia com eu faço/Poesia é certeza de conceitos, /de imagens e eu não sei/ de nada apenas acho. ” (A sentinela em fuga e outras ausências – 2011). Convém não levar em conta esta lição, pois deve-se sim, fazer poesia como Milton Rezende faz. Poesia da melhor qualidade.
Recebi um livro de versos do Milton Rezende e fiquei alegre em saber que ele era meu conterrâneo, de Ervália. Publiquei em meu blog Gaveta do Ivo uma pequena resenha sobre o livro e trocamos vários e-mails, com isto estabelecendo vínculos de amizade virtual, já que não nos conhecemos pessoalmente até hoje. Incentivei-o a continuar escrevendo poesia em vista da qualidade dos poemas que me mandou e incentivei-o também a escrever um livro sobre a história de nossa terra.
Eu diria que na poesia dele podemos identificar mais traços de angústia existencial do que de spleen.
Qual? O romantismo? Milton é poeta moderno e seu lado sentimental é expresso de forma a evitar quaisquer transbordamentos.
Sua preocupação com o sentido da existência e o destino do homem.
A função do escritor é escrever não importa o que. Sou contra a literatura engajada.
Creio que houve um grande equívoco; surgiram milhares de poetas divulgando doidamente seus escritos sem terem a menor noção do que seja poesia. Mas a Internet é de grande utilidade para o conhecimento de obras importantes a que o leitor não teria possibilidades de acesso ou condições de adquiri-las.
Talento.
Milton já publicou quatro livros de poesia e agora demonstra sua capacidade também na prosa com Textos e Ensaios.
No meu caso conheço a poesia do Milton desde sempre, pois começamos a escrever praticamente na mesma época do colégio e mostrávamos os poemas um para o outro.
Realmente, em todos os livros há esse tom de spleen, um tom mordaz de uma poesia urbana, herdado naturalmente, e até subconscientemente, de Baudelaire. Mas poetas como Álvares de Azevedo, Augusto dos Anjos e escritores como Lovecraft e Edgar Alan Poe exerceram um papel muito importante na formação artística do Milton.
Sim, podemos identificar muito facilmente essas características em muitos poemas de qualquer um dos livros. Para exemplificar poderíamos citar o poema "Saldo" de "O Acaso das Manhãs". Devo dizer que há muitas outras facetas importantes na produção poética do Milton. Mas a busca, a condução, a extrema capacidade do poeta de lidar com temas de um desespero lúgubre e até macabro, fazem dele um poeta singular de muita força.
SALDO
De cotidianos resíduos
arrancados na solidão de prisioneiro
em que todo meu ser se devora,
tento compor uma imagem humana
que me faça aceitável a mim mesmo.
No silêncio da morte aparente
na qual me recolho ao túmulo previsto
não sei com que ânsia mórbida de calma,
procuro juntar os cacos de culpa diária
que reunidos formam um apelo ao suicídio.
E não é só o remorso das manhãs doentias
pelo que na noite se desfez em delírios
de humana fraqueza cansada de si mesma,
é todo um saldo de perdas que tenho que fazer
e lançar no cômputo geral das misérias minhas.
De cotidianos resíduos
recolhidos no isolamento mental de indivíduo
em que todo o meu ser se liberta,
tento compor uma imagem poética
que se faça de ideias e despreze a vida.
(REZENDE, O acaso das manhãs. p.11)
Como eu disse acima o tema da morte e da precariedade são a substância da obra. É claro que também, como em tantos poetas, a solidão, a renúncia, a raiva, o desacato à sociedade, a impossibilidade de viver nessa sociedade, escondem sem esconder, o desejo profundo de amar e ser amado. Mas a técnica literária é muito boa.
Não sei ao certo. Mas acho que o escritor não tem função. Para o verdadeiro escritor, escrever é uma necessidade, uma função em si. Se o escritor é bom é bom para os leitores que ele exista.
Não. De forma alguma. Mudam os meios mas a literatura é incorruptível e sempre haverá escritores incorruptíveis. Aliás posso dizer o mesmo de todas as artes.
Necessário mesmo (mas jamais garantido) é dar a cara a tapa, sair, enfrentar e deixar a preguiça de lado, deixar de lado a timidez. Mostrar a obra para os outros. Mas a busca cega por sucesso é a coisa mais estúpida que um ser humano pode fazer. Se escrevemos é porque queremos mostrar o que escrevemos. Se pintamos é porque queremos mostrar o que pintamos. Mas sejamos sensatos, não é mesmo. Ou talvez totalmente insensatos!
Falar sobre a Obra do Milton, para mim, é fácil, por isso mesmo falarei pouco. É uma obra que de certa forma acompanhou minha própria escrita durante toda vida. Gosto de todos os livros dele, mas gosto mais de "O Acaso das Manhãs" e de "Areia". Sua forma de escrever é ácida, sem concessões. Seus poemas são mordazes, incrivelmente corajosos. Ele nunca poupa a si mesmo nem ao mundo. Milton vem da melhor tradição da poesia e prossegue com ela.
UM CÃO
Um cão latindo na noite
é sempre um cão.
Sem cor, sem nome e sem
significado
para quem o está ouvindo.
No entanto este cão
traz em seu latido,
sombras de milhões de outros cães
sintetizados
em uníssono noite adentro.[...]
(REZENDE, O acaso das manhãs. p.12)
Por volta dos 13 anos. Começou eu descrevendo, ao final do dia, as minhas brincadeiras daquele dia. E logo vieram os primeiros cadernos de poesia. O contato inicial com a leitura veio através das revistas em quadrinhos, Walt Disney, e logo em seguida eu já passei aos livros. Um dos autores que mais me impressionaram nesse período foi Neimar de Barros, com uma escrita forte e contundente que acredito ter sido a minha primeira influência e que carrego traços até hoje. Não foi a temática religiosa, obviamente, que me marcou e sim o jeito dele escrever, com muito vigor. Depois vieram os poetas românticos, sobretudo os da 2ª Geração, do “Mal do Século” — Álvares de Azevedo, por exemplo. Mas as influências definitivas foram mesmo a dos autores que eu leio e admiro até hoje: Augusto dos Anjos, Drummond e Fernando Pessoa.
Difícil responder porque na verdade não há nenhum ritual e grande parte do chamado “processo criativo” se dá de uma forma um tanto quanto inconsciente, ou seja, eu não sei como se dá. Tudo e nada me inspira a escrever e quando o faço acredito ser em grande parte por derivações, associações, tabelas... ascensões e quedas. Os dois lados da mesma moeda. O procedimento tende a ser o mesmo, porque cíclico, embora atualmente haja mais rigor estético.
A cronologia das obras segue, naturalmente, a cronologia da vida. Mais ou menos como na resposta anterior. Continuidades e rupturas se misturam e pouco se diferenciam, mas se eu tivesse que apontar uma, acredito que tenha havido mais continuidade do que ruptura, posto que a literatura é sempre um desdobramento.
Quais diferenças você nota nas suas primeiras poesias publicadas (no livro "O Acaso das Manhãs") quando confrontadas com as poesias do livro ("A sentinela em fuga e outras ausências")? Essas diferenças são mais temáticas ou estéticas?
Provavelmente que mais estéticas, embora a comparação deva ser feita entre O Acaso das Manhãs, meu 1º livro, e Uma Escada que Deságua no Silêncio, publicado em 2009 e que foi o último em termos de cronologia da escrita. A Sentinela em Fuga e Outras Ausências, embora tenha sido publicado agora em 2011 é anterior ao “Escada” e, neste sim, eu percebo algumas pequenas mudanças estéticas. Quanto à temática ela pouco muda e tem sido quase a mesma desde sempre, com algumas variações de autor para autor e de acordo com as respectivas épocas.
Talvez nos primeiros tenha havido um pouco mais de indícios, resquícios, mas acredito que não passam disso. Na verdade, eu não acho que tenha muita influência do Romantismo enquanto escola literária. Considero-me um autor romântico por natureza enquanto pessoa e nas posturas diante da vida, mas minha poesia é contemporânea (como não poderia deixar de ser) e pouco carrega do chamado “spleen”, vigente na 2ª metade do século XIX.
Não saberia dizer.
Ah sim, essas relações são mais do que possíveis, e também necessárias. Minhas obras refletem, naturalmente, o que eu sou para aquém e além de mim. Os momentos específicos da nossa vida pessoal são diluídos na escrita para se condensarem, só assim deixam de ser momentos e se eternizam nos poemas.
Não dá pra dissociar completamente a obra do seu autor e nem o autor da obra que ele produz. São intercambiáveis e por serem assim as características se manifestam tanto na vida como na obra, mas não totalmente. Há sim um certo pessimismo intrínseco e inerente à vida de qualquer pessoa, basta olhar ao redor, e isso, claro que é repassado para a minha obra e retorna a mim para ser re-processado; então ele existe em mim. Mas não é apenas isso: existe também muita revolta, uma certa ternura, algum humor e um pouco de esperança de renascer dentro da treva, o que também atende pelo nome de otimismo.
A morte atualmente é um tabu ainda maior do que foi antes, inversamente ao que ocorreu com o sexo. Eros e Tanatos caminham sempre juntos e é por isso que nos atrai. Em um buscamos a superação da morte e no outro a supressão do instinto, a calmaria após o espasmo. Sempre me interessei pela morte enquanto acontecimento e enquanto temática de reflexão, mas não acho que seja por ela ser tabu. É por estar grudada em mim.
Toda filosofia não deixa de ser uma meditação sobre a morte e esse tem sido o seu grande tema, sobretudo no Existencialismo. Mas nenhuma filosofia dá conta de resolver essa questão que é de cada um, individualmente. A morte, sendo pessoal e intransferível leva cada pessoa a lidar com ela da maneira que pode. A dificuldade é de todos e é minha em particular. E enquanto dificuldade minha eu procuro desviá-la para dentro da literatura, que é onde eu posso encará-la de frente enquanto me desnudo para encontrá-la um dia, posto que é inevitável.
Foi a partir de um convite que recebi do organizador da coletânea, Franklin Santana Santos. De início achei estranho eu participar em se tratando de um livro mais técnico e acadêmico, e coloquei esse meu receio para o Franklin que me disse que seria um livro com diferentes abordagens, multidisciplinar – daí o subtítulo “Visões Plurais”. Comportava, portanto, um texto literário e assim eu fiz. Extraí um trecho do meu livro “A Magia e a Arte dos Cemitérios” e mandei pra ele. O texto foi aceito e acabou fechando o volume 3 da referida obra, publicada pela Editora Comenius.
Não concilio, tergiverso. Uma coisa bastante complicada essa e por isso ocorre uma dissociação. Mas de mim para mim a coisa fica mais ou menos resolvida através das pontes e atalhos que estabeleço. Agora, em nível de terceiros é como se fossem duas pessoas. No meu trabalho, por exemplo, poucos sabem que escrevo, que tenho essa ligação visceral com a literatura. Alguns procuram em mim o poeta, outros o homem e, ao final, acabam não encontrando uma coisa nem outra.
É verdade, venho produzindo essa seqüência, mas não creio que haja uma “evolução” entre eles. São momentos distintos, parafraseados de mim mesmo. Esta relação que você aponta, entre a morte iminente e a necessidade de deixar “registros, retratos de si” é possível sim e tem a ver com a auto-transcendência, algo como deixar pistas, pegadas na areia da posteridade que, possivelmente, ninguém há de notar.
Como eu disse, são momentos distintos, mas de certa forma seqüenciados no tempo, daí seu caráter enumerativo. Geralmente ocorre um intervalo entre eles e, ocasionalmente, estão publicados em livros diferentes, mas não há intuito deliberado e a vida é uma questão de espaço.
São pseudônimos e não heterônimos como o fez Fernando Pessoa, portanto não têm vida própria desvinculada da minha biografia. São desdobramentos de mim e surgiram de duas necessidades: participar de concursos e, principalmente, falar de mim mesmo como se fosse outra pessoa, já que eu não tenho quem o faça voluntariamente. Então, às vezes, surgia a necessidade de uma apresentação, de algum prefácio, e lá ia eu, transfigurado de mim mesmo, falar sobre aquilo que eu não sei. Na verdade, é uma tentativa de diálogo no silêncio. Mas o Carlos Águia é médico e professor aposentado.
Não me imagino escrevendo um romance, acho que não dou conta e também não tenho interesse. Ficarei circunscrito à poesia e à prosa poética e isso já é muito para quem planeja se expressar como personagem de si mesmo.
Foi na Argentina, através da Perpétua Flores, a quem não conheço e muito agradeço pela espontaneidade da ação. Revista Presencias era esse o nome e lá tive alguns poemas traduzidos e publicados.
A internet é uma poderosa ferramenta de divulgação, não resta dúvida, e como tal deve ser utilizada; mas persiste o problema fundamental que consiste na seguinte pergunta: quem e quantas pessoas acessam esses sites e blogs de literatura? Acredito que a democratização que a internet proporciona é salutar, mas nem sempre é compartilhada como deveria e muita coisa boa “se perde” nessa imensa rede cibernética composta de milhões de informações e de silêncios eloqüentes.
Isso é meio aleatório e não existe um critério definido de escolha desses poemas. Prevalece a intuição e, muitas vezes, a escolha nem é do autor. Acontece de a gente enviar alguns poemas a serem selecionados e também se dá que a seleção é feita a partir dos próprios livros publicados e, nesses casos, o autor nem é informado sobre isso... é preciso recorrer ao Google para saber.
Meus filhos escrevem poemas, mas eu não saberia dizer sobre essa suposta semelhança de estilos entre eu e eles, e também sou suspeito para falar disso. Cabe a eles estabelecerem um estilo próprio e percebo que caminham nesse sentido, posto que possuem forte personalidade e independência. Mas é lógico que eu os influenciei de certa forma, indiretamente, através do gosto pela literatura. Cresceram e viveram nesse ambiente de livros.
É verdade, existem mesmo muitas epígrafes nos meus trabalhos e dois propósitos me movem: primeiro é uma homenagem que faço aos meus poetas e escritores prediletos e depois também há a questão do insight, daquele gancho, do mote que desencadeia todo um processo criativo. Vou por aí, com a concepção de que o poema não deve ter palavras sobrando e nem faltando. Esta é a minha única medida.
Sem dúvida que o fato de ser mineiro, de ser nascido e criado no interior de Minas Gerais, longe das capitais e fora do chamado eixo Rio-São Paulo – isso teve o seu peso e a sua influência na minha escrita. Mas veio naturalmente, tudo no seu tempo, quando teve que ser, e a literatura é meio que independente da vida e tem lá os seus próprios mecanismos. Essas características e circunstâncias podem ter determinado o enfoque, a maneira de dizer, mas não há nada de novo sob o sol que já não tenha sido vivenciado antes.